domingo, 24 de fevereiro de 2008

Capítulo 001

"Luz-laranja’través-de-minhas-pálpebras",
Mondrian abre os olhos, caminha pela calçada, "fluindo, fluindo, aonde tudo isto vai?", sua imaginação tenta chegar a um final, não obstante saber que é apenas um exercício estético, há uma ânsia, "incontida", de que este destino também possa justificar o sofrimento presente, "sempre procuramos, por milhares de anos, respostas para o externo-a-nós, mas em vão... há apenas este fluir interminável onde o homem irá ser esquecido, somos insignificantes", sente-se vazio, "um continente sem conteúdo vagando, a contemplar este melancólico solo de piano em uma paisagem, ó Cage!"
"Talvez o fim seja uma invenção humana, um recurso que livre o homem comum de se cansar, ou de se desesperar, ao ver o interminável, àquilo que não cabe numa forma, que não cabe no cotidiano dos mortais, nossa mente vive no universo das coisas finitas, que é diferente das coisas reais".
Olha ao redor: rua, árvores, carros, casas, "as coisas". Em sua memória vê Heloísa, "as pessoas", rindo ao lado dele, no Sacyzinho, ela olha para ele, Mondrian tenta rir também, "nós dois juntos?" — lembra-se, tendo então a certeza da negativa, desta esperança, sente pena de si mesmo, "quando aprenderei a não ser iludido pela minha imaginação?" —, ela olha para frente, "elas vêm, num movimento alheio à nossa vontade", fita a moça rindo de perfil, "alheio-ao-alienado", observa os seios dela, a blusa e a calça justos no corpo, suas coxas, "tornam-se...", sente uma irresistível atração pelo corpo dela, "ou queremos isto, part’da-noss’vida... — deseja’rdentement’penetrar-co’corpo-e-c’alma-ness’mulhe’! — mas, sem consultar nossa vontade, elas são levadas".
Mondrian se vê agachado, numa praia, alheio ao resto, fazendo o desenho de uma mulher na areia, "feito um Anchieta moderno", o desenho está quase completo, as águas surgem de repente, "ah! não! não...", destroem o desenho. O pouco ânimo que ele tem rende-se à frustração, "p’ra quem sente isto é desagradável", sonda seus sentimentos para saber se há verdade nisto, "cara, não entendo", olha para o desenho apagado, para as águas voltando ao mar, indo de encontro à outra onda, concorda com um gesto de cabeça, "mas p’ra quem observa há beleza", não obstante sentir a dor da perda, "há-cara!", esta ainda é mais forte, ele sucumbe, "o artista rende-se ao sofredor...", em sua mente vê Jesus tombar sob o fardo da cruz, "sobre ele o sol ardendo num quente céu azul", olha ao redor, não há ninguém, "por-que’sconde’cara?!‘sto’sozinho’qui!‘inda-dói-cara!", olha para o chão, "poderia ter sido o primeiro de vários encontros", suspira, "marcaríamos um no domingo! com a Helô? Sim! Por-que-não?! Ninguém-é-perfeito! a-loir’era-porra-lo’ca!’inda-por-cima-tinha-namorado-cara! zica!zica! eu iria com o Tales, no Tempra, encontraríamos as duas, a Fê e a Helô, e sairíamos, seria-muito-legal! ma’o-tir’saiu-pela-culatr’de-novo", expira lentamente.
Olha para frente, observa as casas, uma ao lado da outra, no silêncio da rua, "ondas: movimentos aleatórios interferindo em ene vidas, não, não-fico’legal, qual é o momento em-que’sta-realidad’desaparece", inspira profundamente, "para ser restaurada como experiência? Não sei cara. Restauração? Talvez apenas um fragmento desta realidade componha a experiência", dá de ombros, "talvez tenha a ver com o Empirismo, mas o que é isto? Vou ver no dicionário. Talvez nossos sentidos não consigam captar mesmo esta passagem, talvez isto faça parte das coisas", ele tenta imaginar estas coisas, "que nos são vedadas conhecer, conhecer ou re-conhecer? quem poderá dizer se estamos aqui para aprender ou relembrar? ficamos então à espera... a long time, uma longa espera cara, ou é à deriva mesmo? no átrio das eternidades", emerge de si, vê uma sibipiruna defronte a uma casa — as texturas no tronco, sob a sombra da copa, inclinado para rua, onde as cores vão do marrom-escuro ao bege-claro, suas miúdas folhas balançando ao vento, as que caíram na calçada e a rua, ao fundo, além da sombra da árvore, iluminada pela fraca luz do dia —, "além das sombras há luz, há consolo para o sofrimento. Esta forma de ver as coisas é invenção humana", não obstante a melancolia, uma onda de poesia aflora em sua alma, "minha mente consegue contemplar este movimento, a poesia indo sobre um mar de palavras abafadas pelo insucesso da retórica — pensamentos imperfeitos, ou então uma forma de pensamento além da retórica — talvez nem seja poesia, pois é inefável, o-maldit’judeu-que-m’perdoe, mas suponho que o verso seja insuficiente para exprimir o belo", procura uma explicação para isto, "...novamente em vão".
"Tod’os-caminhos-levam-ao-nada!"
"Mas podemos apreciar esta beleza fugidia", examina suas sensações, "quem sabe se esta provisoriedade não seja maior que a de nossas vidas... — isto explicaria a nossa sede de eternidade? suponho que o simples fato de buscarmos algo que nos satisfaça menos fugazmente já é uma prova de que há um objeto que tenha essa propriedade... seria possível uma sede que não possa ser aplacada? — ou mais duradoura que a disposição de espírito para poder apreciar esta beleza?", ele passa diante da casa e olha para o jardim, "quantas pessoas não olharam uma vez para isto, sem ter a consciência da sua provisoriedade, e depois vão vê-lo, digo este jardim, apenas na lembrança: ‘ah! passei uma vez diante daquela casa, no tempo em que era de fulano’, ou talvez nem se lembrem mais...", olha para frente, agora sentindo o tempo quase parado; percebe a beleza de suas suposições, "preciso escrever tudo isto, mas não em forma de reflexões — estas, na verdade, questões mais elaboradas, como já escrevi — e sim na forma de uma história; sinto que uma HQ não é suficiente para eu expressar estas idéias, tampouco um poema, um romance! mas, como fazê-lo? usando uma storyboard de início? Detalhes!", ele concorda com um movimento de cabeça, "foi esta a conclusão que cheguei depois de ter visto aquele filme: os pormenores fornecem opções de continuidade a uma situação, a beleza do movimento das ondas seria melhor representada num romance, e não num conceito. Poderia usar aqueles belos e exóticos nomes que inventei: Paulo ou Saulo, Cego a Caminho de Damasco, Lúcifer, o Anjo Invejoso ao Trono de Deus, Pedro, a Pedra de Boa Fé Duvidosa, Jesus, Breve Messias na Trégua dos Demônios, eh! eh! um Jesus herético! pois não houve um... armistício, armistício maniqueísta! e outros como Dos Males o Menor, Trevo de Caminho Rústico etc.". Ele pára na esquina, olha para um lado e outro, "vai ser a minha obra-prima", atravessa a rua, "como irá se chamar? preciso pensar num título, sob o título crio o conteúdo, e onde ela vai se passar?". Olha para a calçada, "Tales, ele vai entender as ondas, Jerônimo entenderia? Não sei, preciso-joga’verde-p’ra-colhe’maduro-p’ra-saber", sente a força da inclinação do terreno ao descer pela rua, olha para frente, "recompor vivências, uma tese p’r’o romance".
"Hã? de novo isto?! não me faça lembrar... a zica daquele sábado: catei a morena, depois a loiraça e acabei chupando o dedo, ah! sob o entusiasmo do dia-de-sorte vem os poréns!" Ele pára, estende os braços — Eis! mudos senhores — "ops!", olha de um lado a outro, "ninguém" — que assistem às minhas revoluções mentais! o diálogo entre duas extremidades: o êxtase estético, as ondas, e o suplício sexual: a frustração d’um sábado à noite! — abaixa os braços, olha para o chão, continua a andar, sua frustração se renova, "uma tinha um corpo maravilhoso — ques-teta’par-de-coxa’boca-quente!", ele cerra os punhos, "uuh! tesuda-me’mo!", ele é sacudido por uma ânsia por render-se, reage com um ímpeto desesperado pelo alívio e uma disposição apaixonada pelo sacrifício, "ela-fez-m’pensa’em-renuncia’aos-meus-sonho’germânicos!a-mim-mesmo-car’! tornar-m’brasileiro!é!vive’uma-vida-nunc’ imaginada-fodend’di’e-noite’ma-morena! —, nunca imaginei catar uma como aquela cara — o imprevisto, com já escrevi também, é um leito onde corre o entusiasmo! — mas apareceu na minha frente, deu bola, fui em cima cara! A outra, além de gostosa, era a loira idealizada há tempos, e tornou-se sinônimo de felicidade... e’ma-puta-frustração-cara! A-segunda-com-loira-cara! Um’era-lo’ca-de-geniosa, outra, bêbada-feit’uma-vaca! Por que só aparecem estas coisas no meu caminho?! A realidade, a vida comum, é uma prisão na qual o carcereiro é a necessidade de dinheiro. Acho que a mulherada não vai com a minha cara mesmo, pelo menos as que eu desejo, resta-me sonhar com esta mulher ideal ao meu lado, sonha’e-lambe’co’a-tesa! fica’no-5-contra-1! que merda!", vira a esquina, à esquerda, está na rua da casa dele, "olha’li aquele carro, Polo, que vi no Estadão aquele dia! placa de São Paulo, li a seu respeito, fiquei com vontade de dirigi-lo — num extremo, comprá-lo — através dos lugares, acho que era uma região da Espanha, que apareciam nas fotos, sobretudo, satisfazer meu desejo, alimentar minha’lma com esta novidade, tão bem vestido como aquele russo, devia ser mafioso! que vi numa foto do mesmo jornal... Mondrian, o dândi!", lembra-se das danças húngaras de Brahms, "Hungria, leste europeu, bem, é ali perto, na falta de uma balalaika, batiuchka!", passa do lado do carro observando-o, vira-se para frente, "com’poss’faze’isto?! libertar-me desta maldita busca por dinheiro p’ra começar a viver?! não vivo, subvivo! Pelo método de vida que me passaram devo procurar ser o melhor em tudo para alcançar o que quero — começar a viver bem! — para daí, velho", ele vê Saratoga, enfezado, na porta da loja, olhando os funcionários no balcão, "aproveitar a perda de minha juventude...", olha para a janela do quarto de seus pais, "isto só me traria insatisfação", puxa as chaves do bolso da calça, "isto não me satisfaz", pára diante do portão, coloca a chave na fechadura e gira-a, "a rotina é tolerável enquanto imagina-se como temporária e precursora da verdadeira vida", abre o portão social e entra na área da casa, "nada compensa provar duas vezes uma coisa após ter-se perdido o gosto por esta", fecha o portão, "o desejo é algo frágil, que pode nos trazer satisfação somente enquanto é novo", observa a garagem, "mesmo com o Monza aí ainda cabe mais um carro, as mulheres desejadas devemos degustá-las enquanto há desejo, nunca, porém, introduzi-las na rotina. A vida é ingrata cara, se’u pudesse destruí-la, destruiria-a, mas nunca iria atentar contra a minha própria e nem a de meus cegos semelhantes que chafurdam na rotina. Deve haver algo, em algum lugar, puro e sutil, que traga realmente satisfação, e que nos faça esquecer a lembrança desta nefasta vida. Os bens desta vida não trazem satisfação, a religião não me trouxe paz, somente me encontrei — e consegui suportar a violenta carga realística — quando refugiei-me dentro de mim mesmo, taciturno aos olhos do mundo, são interiormente".
Mondrian abre a porta da sala, "sábadão à tarde, tudo silencioso aqui", ele tenta escutar alguém, "que gostoso! acho que todo mundo ‘tá tirando aquela siesta, muy bien! Yo también vô!", atravessa a sala para o corredor, vira à direita e sobe a escada, "sei que s’eu sentar-me diante da escrivaninha conseguirei escrever alguma coisa, mas preciso dormir um pouco, acordar só no domingo, viajar nas idéias, esquecer este monte de zica da minha vida", sobe outra rampa de escada, "o-maldito-judeu não vai estar disponível hoje, ele vai sair com a Fernanda... que-conforto-qu’é-te’um-carro! será que meu pai emprestaria o carro? agora estou trabalhando! tir’o-cavalinho-da-chuva! ele não deixa nem a minha mãe dirigir...", ele pára no corredor, próximo à porta do seu quarto.
"Cara!", lembra-se de Ladislau ter passado por eles na frente da Bullu’s naquele sábado, "o Lalau já tem carro!", se vê olhando o carro que passou diante dele, "e... por que eu não tenho?", sorri, inspira, encosta-se à parede, "nunca", mexe a cabeça negativamente olhando para o chão, à sua direita, " nunca tinha pensado nisso, assim, que" — agora eu posso! — sente que fez uma descoberta e tanto, que passou ao largo de todas as reflexões e sentimentos que tinha tido até chegar à casa, que as lívidas nuvens da má sorte abriram-se para ele — é o sol de ouro da vida! ah! ah! ah! — olha para os lados, "ninguém. Foi um esquizofrênico, mudo há 17 anos, quem disse, disse-não! exclamou isto! quando viu um quadro das Banhistas, de Renoir", ele viras-se, "já não dependo do dinheiro do meu pai, eu trabalho, não tenho despesa, o Polo! tem espaço na garagem", coloca a chave na fechadura da porta do quarto mecanicamente, abre-a, entrando, "Ufano! irei ao encontro da vida!", entra no quarto dando uma gargalhada — Opa! — põe a mão na boca — Cara! — "por que não pensei nisto antes?!", ele sorri, "encontrei uma maneira, não!não! é’m’arma-mesmo-cara! contra esta zica toda!"
Homem-sem-carro-não-pega-nada!
"Sai-fora! agora vou livrar-me disto!"
Sente que tem disposição para isto, — nunca mais quero sair à pé! — ele deixa a mochila na cadeira da escrivaninha, "s’o-Lalau-com‘quele-Opalão-véio-consegue-cata’mulhe’por-que-não-eu?!", esfrega as mãos, vai até o aparelho de som, observa enquanto "enfia o plugue macho na tomada! vô’ tirar o Bráulio da miséria cara!", liga o aparelho, pega o controle remoto, senta-se na cama, enquanto tira os tênis observa o aparelho ler o CD que está nele, "s’eu pedir p’ra minha mãe ela me ajuda com um pouco", deita-se na cama, olha para o teto, " coloco um sonzinho nele e saio por aí catando a mulherada!", ele aponta o controle para o aparelho e aperta play, a música barroca começa a tocar.
— Mond vai ter carro agora cara!